Este é um conto do meu antigo blog, com algumas modificações.
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Há sempre alguma coisa no final das novelas que a deixa indignada. Ontem, uma bala na cabeça do cafajeste aparentemente não foi bastante. “Queria ver ele no xilindró, enrabado à força”. De ser enrabada sei que ela entende: dez filhos, sendo que um é o pai que eu não conheci. Sheila chupa dramaticamente o ar entre os dentes toda vez que ela levanta o tom, aprendeu a fazer barulho de papel rasgando com a saliva acumulada na boca. Ainda é muito nova, mas logo vai entender também.
Na útlima sexta-feira do mês minha tia costuma aparecer pra nos levar ao cinema no centro, mas aquele era o último capítulo e ela detesta pegar a reprise no sábado.
Foi a mãe de Celso quem, depois de duas horas esperando ele aparecer buzinando sob a luz encharcada do único poste aceso na noite chuvosa lá fora pra sairmos, me ligou, querendo saber se o imbecil estava comigo, e mais tarde, dizendo que haviam encontrado a moto com a roda entalada num bueiro destampado, e cinco minutos depois disso, quando encontraram o corpo, que levantou vôo e só parou quinze metros a frente.
Deus, me jogue no inferno por isso, mas o desespero da mulher me dava vontade de ir até lá esbofetear aquela cara inchada de choro. Merda, Celso... em casa com minha avó e minha irmã de nove anos numa sexta à noite, sem cinema, sem álcool? Já tinha quase dormido, quando Sheila retomou a sinfonia salivar.
E continuou a chover, até agora pouco. Pela janela: minha avó encolhida debaixo dum guarda-chuva. Naquela camisola amarela ensopada, igualzinha a uma casca de banana em pé.
Depois disso, você não acreditaria nem se eu te mostrasse uma foto. Diria que nenhuma chuva se parece com isso que eu vi... mas o vento batendo através dos espaços entre os prédios alinhados do condomínio da frente ensacava a chuva finíssima em bolsões d’água, que abaulavam-se em cortinas de uma névoa de gotículas, chicoteando o carro parado a nossa porta, com os faróis projetando dois tiros de uma luz dourada, sedosa, através dela. Queria que minha irmã nunca tivesse aberto a porta daquele carro. Tivesse ido embora com ele, abduzida por aquele ponto luminoso no quadro negro da minha lembrança. Queria que tivesse sido um sonho. Acordar sem saber que uma cena assim acontece, e não dura pra sempre.
Sheila parou ao portão, estendia a mão cheia de balas do aniversário da colega de classe, aquele giz embalado em papel crepom. “Pega a sua cor da sorte, vó.” Mas com um tapa na cabeça, ela embrulha a menina na sua casca de banana furada, vem balbuciando alguma coisa sobre resfriado e a conta da farmácia enquanto a traz pelo pulso - Sheila não chora. Acho que nunca vi ela chorar.
Agora está vindo pro meu quarto, tenho certeza. Vai me pedir pra fazer a mesma coisa, garota estúpida.
Volto à janela, o carro que a trouxe do aniversário vai embora devagar, uma mãe no volante, provavelmente, pensando se fez a coisa certa em deixá-la sair.
Meu cinema é a chuva caindo. O tempo passando, lá fora.
Meu melhor amigo está morto
Minha cor da sorte é nenhuma.