domingo, 26 de fevereiro de 2012

Teatro dos Robôs

Há um lugar sujo no meu coração
Repleto de baratas e desabrigados
À sombra dum viaduto sem nome
De tempos em tempos interditado
Por onde vaga uma figura trôpega
Um pedinte aidético e aleijado

(Vento sussurrando: “Eu o culpo por todos os meus problemas”)

“Nem o terror que ronda à noite,
Nem a seta que voa de dia”
Pavor é fruta de estação
-Medo de sirene: 1.Tupifobia (tipo F)
A luz pinga da goteira estrela desavisada
A luz pode vir da pinga, gota d'água destilada
Vigia alerta cada buzina,
Sirene, cigarra, ou cigarro apagado
Uma pedra estourou a lâmpada do sonho que era seu nome
Agora, qualquer grito de dor pode ser um chamado.

(Ecos de preces perdidas na luz, uma chuva de adagas e fecham-se as cortinas. Atores se escondem.
A platéia está morta.)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Cloroforme pra desacordar



Cair da cama três vezes ao dia
Encher e esvaziar o estômago de palavras
À noite pedir a deus que deus exista
À noite me desabe o teto finalmente luz

Até que enfim repouso sobre mil navalhas
Até que enfim nocauteado pela sua ausência
Cair e acordar na cama, um outro mês um outro dia
Procurar um nome em cada rosto me desvenda esse lugar

Até que ao fim da longa volta pra casa
Até que partam os sinos uma nova canção no ar
Regendo-a, a partitura duma smog fúnebre
Para a cria da cadela que atiraste ao mar

Até que ao fim da longa volta pra casa
Até que partam os sinos uma nova canção no ar
Sufocado pela mão-de-ferro que segura o lenço, peço
Cloroforme pra desacordar.

domingo, 26 de junho de 2011

Pedra papel tesoura (Brilha, brilha estrelinha)

Brilha, brilha estrelinha
Lá no fundo da latinha
Pedra papel tesoura coração
Brilha minha estrela-marinha
Sozinha, minha vida brilha
Só minha.
Mil querubins descem pra olhar
 Do que é feito meu brinquedo, que é de lata e é de luz.
 Eles são moleques curiosos, lourinhos, gordinhos, olhos pretos de vidro e tubos de oxigênio, que vivem em imensos dirigíveis movidos a monóxido de carbono, no Céu
 Tiram minha roupa, me lavam do meu pecado e alçamos vôo sobre os charutos de aço e concreto de São Paulo, passando de mão em mão um cachimbo de papel mágico, feito pra embrulhar as estrelas - lá dentro, um meteorito fumegante.

Brilham 27 estrelas minhas
Mas só uma brilha sozinha
E tem sempre alguém assim
Quadrado losango círculo
Uma estrela igual a todas as outras
Mas sozinha demais no azul imenso

Os alienígenas estão chegando. Jaleco, farda, armados de luzes pisca-pisca.
As naves varrendo as ruas de gente, sinais na plantação. E ninguém sabe ao certo pra onde levaram todo mundo.
 Todo mundo que eu conhecia foi abduzido.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Quinta-feira, 23 de Junho...

já tomei três duchas madrugada adentro. Quinta-feira, 23 de junho, ela pregou Jesus Cristo na parede do banheiro, agora ele sangra sozinho numa sala de televisão: é como você se sente tentando parar sozinha o incessante outono das folhas do seu calendário.

“Mas você está ficando igualzinho seu pai mesmo... Já não se lembra nem de mudar a posição na cadeira, quando a tela muda do futebol pro bombardeio.”

Você vai embora, você atravessa três estados a trilho, asfalto e fibra ótica, traz o cristo acorrentado na bolsa (se um dia esses braços e pernas se soltassem, se um dia até ele pudesse correr de você)...
Ergue os muros ao redor da cama, se esconde sob a coberta pra abrir o caderno...
Mas está aqui, bufando na sua nuca
Essa cidade, destilada no seu suor,
Essa cidade, amanhecendo no final de cada palavra sua

Sexta-feira, 24/06

Se um dia ao menos a gente soubesse       ,
Se um dia nunca mais se pudesse         .
Ao menos um      ,
Ao menos     .

sábado, 7 de maio de 2011

Dos filmes que aluguei (por ti)


 Arrancava-me suspiros, e $3,50 do bolso, toda semana.

 Demorar-me a tarde inteira ali, só pela idéia de, entre um registro de locação computado no sistema e outro, ser furtivamente gravado no negrume dos seus olhos. Sua estatura – maior que a minha, isso era importante. Seu nariz sempre associei a uma descendência judia. Sua voz, suas sugestões de locação. Sua camiseta rosa sem mangas, listras brancas, deixando a mostra uma alça de sutiã quando se distrai - cena que ainda me faz achar qualquer motivo pra passar por aquele lado da rua. Sua filha da minha idade.  
 Desde a época das animações de Tim Burton, até me interessar pelos filmes da lista da “Cinemateca Veja”, que circulou nas bancas naquele ano. Minha aparente decepção com A Bruxa de Blair, e a vontade de rever, quatro, cinco vezes, que me surpreendeu nos meses seguintes. Tudo por ti. Voltar do exterior e te encontrar ainda ali, e descobrir que minha conta permanecia – fidelidade.

 Mas $3,50 era dinheiro demais por algo que eu, agora, podia baixar de graça. E foi o fim. 
 Fui te achar substituta mais barata, e mais perto.

- Você tem Enigma do Espaço?

-Tava vendo esse filme ontem, na sky! Ele chegou – na verdade, ela provavelmente disse “meu marido chegou”, mas há detalhes que a memória, por qualquer motivo, escolhe descartar – me perguntando: que-que-ce-tá-assistindo? Eu-enigma-do-espaço. Ele-sobre-o-quê-que-é? Eu-tipo-dãa-sobre-um-enigma-do-ESPAÇO!

-Ah, tá. Mas você tem?

-O quê?

-Enigma do Espaço?


-Não.


Como poderia ali, naquele momento, não ter trocado tudo o que conhecera contigo, então? Todos os anos do teu perpétuo silêncio, exceto quando requisitada uma sugestão, e ela se atirara assim, logo da primeira vez – sobre a minha carteira, de qualquer forma.
 Entreguei-me por completo: endereço, telefone, identidade, cpf, taxa de registro. Cadastrando-me. Com outra, sim. Mas a culpa foi do teu silêncio (e teu preço salgado).

Depois dos primeiros filmes, vieram as temporadas de Lost. E o livro emprestado. E as conversas. Conversas em que me sentia finalmente correspondido. Uma, duas horas, passando. Não esperando pra ser notado, mas de fato fazendo companhia.
 Até a tarde fatídica, depois da qual veio aquela fase difícil, em que eu atrasava as entregas, na esperança de receber um telefonema de advertência - mas nada veio. Nada de telefonemas. Nada de multas. Apenas frieza, desde aquela tarde, em que, vai se saber por quê, tiveste tua vingança, quando, também ela, verteu naquele silêncio que, outrora, eu não podia suportar em ti.

No próximo mês terminarei Lost, e estará tudo acabado. Quem sabe uma explicação até lá? Ainda, se me sento em alguma lanchonete da avenida à noite, quase sempre tenho a chance de te ver andando de volta pra casa, depois de fechar a locadora... camiseta rosa sem mangas, listras brancas, alça bege a mostra, vingada. E me pergunto por que mesmo te troquei.

terça-feira, 26 de abril de 2011

tupi for Bia

Mais um dia no teu pensamento
Mais um dia você no meu
Mais uma tarde de página em branco
Ou de palavra carecendo papel

Cor do meu céu: celofone nas janelas

Mais um dia, mais pensamentos
Andar sozinho no coração de ninguém
Mais uma tarde de página em branco
Saudade não cabe no celular

Cor dos meus olhos, refletem os seus

Mais um dia caindo da janela
Mais uma janela aberta na luz
Seu nome que nasce na minha cabeça

Uma estrela que é sua voz no telefone
E uma estrela que é seu rosto e é seu nome
E uma estrela que é só um pouco de você.


Cor dos meus olhos, refletem os seus

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Cinema

Este é um conto do meu antigo blog, com algumas modificações.

***

Há sempre alguma coisa no final das novelas que a deixa indignada. Ontem, uma bala na cabeça do cafajeste aparentemente não foi bastante. “Queria ver ele no xilindró, enrabado à força”.  De ser enrabada sei que ela entende: dez filhos, sendo que um é o pai que eu não conheci. Sheila chupa dramaticamente o ar entre os dentes toda vez que ela levanta o tom, aprendeu a fazer barulho de papel rasgando com a saliva acumulada na boca. Ainda é muito nova, mas logo vai entender também.

Na útlima sexta-feira do mês minha tia costuma aparecer pra nos levar ao cinema no centro, mas aquele era o último capítulo e ela detesta pegar a reprise no sábado.
 Foi a mãe de Celso quem, depois de duas horas esperando ele aparecer buzinando sob a luz encharcada do único poste aceso na noite chuvosa lá fora pra sairmos, me ligou, querendo saber se o imbecil estava comigo, e mais tarde, dizendo que haviam encontrado a moto com a roda entalada num bueiro destampado, e cinco minutos depois disso, quando encontraram o corpo, que levantou vôo e só parou quinze metros a frente.
 Deus, me jogue no inferno por isso, mas o desespero da mulher me dava vontade de ir até lá esbofetear aquela cara inchada de choro. Merda, Celso... em casa com minha avó e minha irmã de nove anos numa sexta à noite, sem cinema, sem álcool? Já tinha quase dormido, quando Sheila retomou a sinfonia salivar.

E continuou a chover, até agora pouco. Pela janela: minha avó encolhida debaixo dum guarda-chuva. Naquela camisola amarela ensopada,  igualzinha a uma casca de banana em pé.
 Depois disso, você não acreditaria nem se eu te mostrasse uma foto. Diria que nenhuma chuva se parece com isso que eu vi... mas o vento batendo através dos espaços entre os prédios alinhados do condomínio da frente ensacava a chuva finíssima em bolsões d’água, que abaulavam-se em cortinas de uma névoa de gotículas, chicoteando o carro parado a nossa porta, com os faróis projetando dois tiros de uma luz dourada, sedosa, através dela. Queria que minha irmã nunca tivesse aberto a porta daquele carro. Tivesse ido embora com ele, abduzida por aquele ponto luminoso no quadro negro da minha lembrança. Queria que tivesse sido um sonho. Acordar sem saber que uma cena assim acontece, e não dura pra sempre.
 Sheila parou ao portão, estendia a mão cheia de balas do aniversário da colega de classe, aquele giz embalado em papel crepom. “Pega a sua cor da sorte, vó.” Mas com um tapa na cabeça, ela embrulha a menina na sua casca de banana furada, vem balbuciando alguma coisa sobre resfriado e a conta da farmácia enquanto a traz pelo pulso - Sheila não chora. Acho que nunca vi ela chorar.
 Agora está vindo pro meu quarto, tenho certeza. Vai me pedir pra fazer a mesma coisa, garota estúpida.
 Volto à janela, o carro que a trouxe do aniversário vai embora devagar, uma mãe no volante, provavelmente, pensando se fez a coisa certa em deixá-la sair.

Meu cinema é a chuva caindo. O tempo passando, lá fora.
Meu melhor amigo está morto
Minha cor da sorte é nenhuma.